segunda-feira, 30 de maio de 2016

As funções cerebrais e a leitura


    Muito já se falou a respeito dos benefícios da leitura, porém eles vão muito além do que se imagina. O ato de ler funciona como um exercício para o cérebro e, durante a leitura, muitas sinapses acontecem. (Segundo o Dicionário Aurélio, sinapse significa: Conexão entre dois neurônios vizinhos, da qual há mais de um tipo, segundo as formações que fazem o contato entre essas células para que se propague o impulso nervoso de uma para outra.) São essas sinapses que exercitam o cérebro e evitam diversos tipos de doenças degenerativas como as demências e o mal de Alzheimer.
     O uso contínuo da memória, que é ativada pela leitura, estimula o cérebro que é como um músculo, quanto mais é usado, melhor o seu funcionamento. Ao decodificar uma palavra, vários sistemas cerebrais são acionados, agindo conjuntamente com a memória a fim de formar a imagem ou o símbolo que traz o significado dela. Tudo isso acontece muito rapidamente a partir do momento que a pessoa está alfabetizada. É interessante ressaltar que a área do cérebro estimulada pela leitura é a mesma para qualquer idioma, do português ao japonês.
    Mas não basta estar alfabetizada para uma pessoa ser capaz de interpretar um texto. Somente com o tempo, as sinapses acontecem de forma a criar os símbolos e ao mesmo tempo juntá-los para criar no cérebro a história ou a informação contida no texto. E então, de alfabetizada, a pessoa se torna “letrada”.
    Segundo o neurocientista francês, Stanislas Dehaene, no português, a criança aprende primeiro a combinação de consoantes e vogais. A próxima etapa é entender a combinação entre duas consoantes e uma vogal, como o “vra” de palavra. Essa composição de formas, do menor para o maior, é feita no lado esquerdo do cérebro. Quando a leitura se transforma em rotina, essa decodificação se automatiza e então o cérebro passa a se “concentrar” na interpretação das informações contidas nas palavras.
    Outro estudioso, Gregory Berns, neurocientista da Universidade de Emory, nos Estados Unidos, concluiu através de um estudo que a leitura de um romance provoca mudanças de conectividade no cérebro, que persistem mesmo alguns dias após o término dela. “Histórias ajudam a dar forma às nossas vidas, e às vezes ajudam a definir uma pessoa. Nós queremos entender como elas entram no nosso cérebro, e o que são capazes de fazer com ele”, conta Gregory Berns, em reportagem da Revista Veja. Os pesquisadores ainda não sabem até que ponto essas mudanças afetam o cérebro, mas já descobriram que os efeitos duram em média 5 dias e que são mais duradouros conforme a empatia do leitor com o romance lido.
    Como se pode perceber, a leitura nos transforma, fisiologicamente e emocionalmente. O que lemos pode mudar a nossa forma de ver e pensar o mundo. Lendo, exercitamos nosso cérebro e o protegemos de demências e outras doenças. É através da leitura que alçamos voo rumo à expansão do conhecimento. Ler nos torna melhores escritores, enriquece nossas conversas, amplia nosso poder de compreensão das pessoas e das histórias. Ao ler, podemos mudar nosso ponto de vista com relação à vida. Tornamo-nos mais críticos, capazes de contestar acontecimentos e informações dos quais discordamos.
    O hábito de ler têm início na infância, quando pais e educadores são capazes de estimular e tornar a leitura uma prática prazerosa. Se conseguirem fazer isso de forma adequada, o hábito irá durar a vida inteira, e seus maiores benefícios serão percebidos desde a infância até a terceira idade.
    É preciso esforço e disciplina para transformar nossas crianças em “apaixonados por leitura desde cedo”
    E se você ainda não é um desses apaixonados, nunca é tarde para começar! Procure pela Book Lovers Kids em um shopping perto de você e escolha o livro que te desperte esse hábito, tão benéfico para nossa saúde e nossas relações

Para saber mais, veja:








sexta-feira, 27 de maio de 2016

Um estupro a cada 11 minutos

    Sim, este é um dado assustador: a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil.

    Uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro. Questiono o que leva um ser humano a fazer isso com o outro, o que passou pela cabeça desses mais de 30 homens para praticarem essa barbárie. Lendo as notícias na internet, encontro comentários de apoio à vítima, e outros que a transformam em culpada: “O que essa garota foi fazer nesse lugar a noite?”, “Onde estavam os pais dela?”, “Como os pais deixam uma garota de 16 anos se relacionar com esse tipo de homem?”. A verdade é que não há o que julgar, porque não existe nada que justifique a violência sofrida por essa menina.

    Alguns fatos são verdadeiros: a infância tem ficado cada vez menor, os adolescentes têm se erotizado cada vez mais cedo em parte por conta da TV, e o primeiro beijo, a primeira relação amorosa acontece quando não existe maturidade suficiente para isso. Nem fisicamente, nem neurologicamente. Um adolescente de 16 anos não conhece os limites do seu próprio corpo, quem pode ver ou tocar, e de que forma. Acredito que o estupro acontece até sem que a garota saiba que está sendo estuprada. Ela sabe que foi uma violência, sabe que a fez sofrer, mas não entende como estupro. E por esse motivo, não denuncia, não conta para ninguém. Portanto os números, que já são alarmantes, podem ser ainda maiores.

    E de quem é a culpa? Dos pais? Da garota que usa um vestido curto? Não! A culpa é e sempre será de quem estuprou. A culpa é da mente doentia do estuprador. A culpa é da desvalorização da mulher e da sociedade machista. A culpa é daquele que vê na mulher um objeto. A culpa é das pessoas que pensam que porque a mulher está usando uma roupa mais justa, está se expondo ao estupro.

    A garota saiu de casa para se encontrar com seu namorado, e porque ele achava que havia sido traído, resolveu se vingar, primeiro dopando a menina e depois convidando mais de 30 “amigos” para estupra-la. Isso não é “instinto animal”. Animais irracionais não fazem esse tipo de coisa. Isso é típico do pior tipo de humano que pode existir no mundo.

    Hoje eu senti vergonha de ser humana. Senti nojo, repulsa, ódio, horror e pena. Pena por essa menina que teve sua vida dilacerada pelo desrespeito e pela maldade. Onde é que vamos parar? Que mundo estamos deixando para essas crianças e adolescentes que estão aí, vulneráveis, e sujeitos a este tipo de violência?

    O presidente em exercício Michel Temer está disposto a criar políticas públicas para combater a violência contra a mulher. Mas essa não é a solução. A solução poderia ser investir na educação. Talvez educando as crianças e adolescentes, falando sobre a sexualidade e as formas de violência que uma mulher pode sofrer, minimizaria o problema. O conhecimento pode tornar essas futuras mulheres mais cientes, menos omissas. Mostrar às meninas o valor que elas têm, pode mudar a forma como elas se relacionarão com os homens futuramente. Porém isso pode levar tempo.

    Enquanto isso, a cada 11 minutos, outras garotas serão estupradas, violentadas, e até mortas, por esses seres humanos deploráveis.

    Encerro esse post com um texto escrito por Luara Colpa, brasileira, 28 anos, feminista, para “Bia”, a garota estuprada:

Trinta Homens

Trinta. Vinte e nove. Vinte e oito. Vinte e sete. Vinte e seis. Vinte e cinco. Vinte e quatro. Vinte e três. Vinte e dois. Vinte e um. Vinte. Dezenove. Dezoito. Dezessete. Dezesseis. Quinze. Quatorze. Treze. Doze. Onze. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Nenhum.
Eu tiraria todos – um por um – de cima de você neste momento, irmã.
Eu limparia seu corpo, tiraria o som dos seus ouvidos, o cheiro deste lugar, as lembranças.
Se o tempo voltasse, eu os impediria de terem saído de casa. Todos eles. Eu desligaria os celulares, os computadores, tiraria baterias dos carros, dos ônibus. Eu faria feitiço, veneno, poção, dor de barriga para todos.
Trinta. Eu te levantaria daí e te levaria pra ver o pôr do Sol no Arpoador, se o mundo girasse ao contrário… Mas o mundo não gira.
Foram Trinta. Um ex-companheiro e vinte e nove “amigos”. Nenhum deles se compadeceu. Vinte e nove seres humanos toparam se unir a um criminoso. Trinta. Trinta e um agora compartilharam. Trinta e dois riram. Trinta e três justificaram. Trinta e quatro se excitaram, trinta e cinco procuram o vídeo neste momento. Agora o número se torna uma projeção geométrica.
 A misoginia aparenta infinita, o ódio e o machismo aparentam grandiosos demais. A primeira reação do público masculino em geral é ver o vídeo. No entanto, quando pensei que fôssemos só nós duas, olhei para o lado e vi três, quatro, cinco. Chegaram seis, sete, oito, trinta. Em segundos fomos noventa, cem, mil, somos milhares por você.

Aquele som, aquele cheiro… Queremos que sua memória apague mana! E que o mundo nos ouça: “A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA”. Que ecoe. Que ecoe: Daqui vocês não passam. Não passarão. Que cada uma de nós seja porta voz do ocorrido. Se a grande mídia não denuncia a violência contra a mulher periférica, que nossas mãos sejam denúncia. Na violência contra a mulher todas metemos a colher. DENUNCIE.



quarta-feira, 25 de maio de 2016

O que fazer quando não há nada para fazer

    E finalmente chegou o feriadão...
    Nada de trabalho, nada de escola, nada de acordar cedo, nada de horários e... Nada para fazer!
    Quem tem criança e não conseguiu sair para viajar e nem teve tempo para programar algo para fazer, sente certo desespero pensando no caos que se instalará em casa se não houver alguma atividade dirigida às crianças. E às vezes o cansaço é tão grande, que nem conseguem pensar em algo interessante. E amanhã de manhã, quando as crianças acordarem, já começarão as perguntas: “O que a gente vai fazer hoje?”, “Vamos ao cinema?”, “Vamos tomar sorvete?” e os adultos ficam perdidos em meio a tantas sugestões e pedidos.

    Para ajudar na solução desse impasse, aqui vão algumas sugestões para que pais e filhos possam se divertir e também descansar nesses dias de feriado.
Antes de qualquer coisa, programe-se de forma que:
  1. Reservem um tempo para seu próprio proveito. Pode ser uma ida ao salão de beleza para as mamães, uma partida de futebol com os amigos para os papais ou um jantar a dois. Seja o que for que seja para sua satisfação.
  2. Programem o dia de forma que haja tempo para que as crianças também possam descansar um pouco.
  3. Incluam atividades em que a família toda possa participar, num passeio ou em casa.

Atividades para serem feitas em casa

Preparando o almoço: conversem com as crianças sobre qual o cardápio do dia e coloquem-nas para ajudar na cozinha (veja o post Meu filho não come – parte 2 ). Existem livros de culinária voltados para crianças que são legais para termos em casa. (veja em  “Dicas de Leitura”). Em minha casa, as crianças adoram começar o dia preparando o café da manhã.

Hora da História: selecionem alguns livros para ler para as crianças, como em uma roda de leitura. As crianças menores podem ouvir a história e dramatizar, as maiores podem ler para os pais e irmãos, e todos poderão se divertir. (Veja em "Dicas de Leitura" e "Análise de Livros" algumas ótimas sugestões!)

Fazendo arte: organizem materiais como papéis diferentes, canetinhas, cola colorida, giz de cera, e o que mais tiverem em casa, para um momento de arte em família. Vale fazer um varal para colocar as produções e enfeitar a casa. As crianças adoram fazer isso!

Cineminha em casa: escolham filmes que sejam do interesse de todos, façam pipocas bem gostosas (no site Comer para Crescer tem 12 receitas bacanas), apaguem as luzes, peguem cobertas para todos e pronto! Está montada uma sessão de filmes melhor que a do cinema! Estes 8 filmes são ótimos para ver em família:
A Invenção de Hugo Cabret: Conta a história de Hugo, um órfão em Paris, que guarda consigo um robô quebrado, que o leva a descobrir muitos mistérios.
Rio: A história de uma arara azul que nasceu no Rio de Janeiro, mas foi capturada na floresta e vendida como animal de estimação para uma garota que mora nos Estados Unidos.
Alice no País das Maravilhas: Tim Burton, um dos gênios do cinema, dirige essa obra prima que conta a história de Alice, a menina que segue um coelho apressado e encontra o Chapeleiro Maluco, com excelente interpretação de Johnny Depp.
Compramos um zoológico: Baseado em fatos reais, segundo as memórias de Benjamin Mee, um viúvo que se muda com os filhos para um zoológico.
Harry Potter: Sete filmes contam a história do menino Harry Potter, filho de bruxos, perseguido por Lord Voldemort.
Meu Malvado Favorito: tem como personagem principal o peculiar e ambicioso Gru, que sempre tem ideias mirabolantes para ser o maior vilão da história. Após descobrir que as pirâmides do Egito foram roubadas, ele decide que vai roubar nada mais, nada menos que a lua. Para realizar seu projeto, ele conta com a ajuda dos minions, seus fiéis escudeiros amarelos, e de um raio encolhedor.
Diário de um Banana: Baseado na série de livros de mesmo nome que é sucesso mundial entre as crianças e adolescentes, Diário de um Banana traz a história de Greg, um garoto prestes a ingressar no temido Ensino Fundamental II. Pode render ótimas conversas entre pais e adolescentes.
As aventuras de Paddington: o urso Paddington foi criado na floresta do Peru pelos tios, mas um terremoto acaba separando o trio. Diante disto, o pequeno urso é enviado pela tia para Londres, local onde mora um explorador que visitou o Peru décadas atrás. Paddington faz a viagem clandestinamente e, ao chegar, acaba indo para uma estação de trem. Lá ele conhece a família Brown, que decide ajudá-lo a encontrar o tal explorador. Só que a vida na civilização não é tão simples assim.

Brincadeiras com a turma: convidem os coleguinhas das crianças para passar à tarde em sua casa. Eles podem brincar livremente ou, com a sua orientação, brincar de esconde-esconde, pique-pega, banco imobiliário, jogo da memória e o que mais sugerir a imaginação.

Atividades para serem feitas fora de casa

    Essas atividades vão depender de onde vocês moram. Em grandes centros urbanos, como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, existem várias opções de passeio para fazer com as crianças. De shoppings a parques, teatros, zoológico, museus, enfim, há uma infinidade de oportunidades para se divertirem juntos. É bom conferir com antecedência as opções, nos sites especializados em divulgar a agenda cultural da cidade. Confira a agenda da feira de livros Book Lovers Kids e, caso tenha uma perto de você, não deixe de visitar com as crianças. Lá vocês poderão adquirir vários livros, a preços acessíveis, para a “Hora da História” em casa que sugeri há pouco.
    Já nas cidades do interior, onde as opções de passeio com as crianças são quase inexistentes, vale usar a criatividade para criar coisas legais para fazer. Pode ser um piquenique diferente, um passeio de bicicleta, visitar um ponto turístico da cidade, uma sessão de cinema, enfim, organizem também com antecedência para que dê tudo certo.
No mais, aproveitem muito a companhia dos seus filhos. No dia a dia tempos pouco tempo para curti-los e eles crescem tão depressa... Não percam a oportunidade de estarem juntos!

Um ótimo feriado a todos!


  
"Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele...Qualquer dia a gente se encontra e, dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento...”
Mário Lago




segunda-feira, 23 de maio de 2016

Ensinando valores e construindo um mundo melhor

“O mundo que vamos deixar para nossos filhos depende muito dos filhos que vamos deixar para esse mundo”. Com esta frase de Mário Sérgio Cortella, dou início a uma reflexão importante: que tipo de filhos estamos deixando para o nosso mundo? O que valorizamos mais: um mundo livre dos poluentes, com as florestas todas recuperadas, ou um mundo povoado com seres humanos que se preocupam em ser éticos e dotados de valores essenciais, que os faça manterem o planeta habitável? 

Que valores estamos ensinando às nossas crianças?

    Estamos vivendo uma era em que o essencial é aquilo que se possui, em bens materiais. O melhor tênis, a calça de marca, o carro do ano, a casa maior... E então, valores como ética, solidariedade, autocontrole, e tantos outros, vão se perdendo em meio à ilusão do efêmero.
    Ensinar tais valores às crianças não é tarefa fácil. A conduta dos pais e educadores e as reflexões que fazem juntos são imprescindíveis para a construção da personalidade dos pequenos.
    Crianças não são capazes de compreender o que é amabilidade na teoria, mas podem aprender se os pais agirem de forma amável com as pessoas. E assim acontece com a honestidade, a ética, a retidão, o altruísmo e todos os valores tão importantes para se viver em sociedade.
    É preciso ensinar que as pessoas honestas nem sempre são que levam as maiores vantagens, porém são as que se deitam todas as noites e dormem em paz consigo mesmas. Que nem sempre calar-se é sinal de fraqueza, muitas vezes é sinal de sabedoria. Que ganhar uma competição por seu próprio mérito é a verdadeira vitória. Que dividir seus brinquedos com quem não tem nada é também um presente. Que ceder a vez para alguém que está mais necessitado não é ser bobo. Que colar na prova é atestar sua preguiça para estudar, além de demonstrar sua falta de confiança em si mesmo. Que chorar frente aos outros é sinal de sensibilidade. Que apoderar-se daquilo que não é seu não é vantagem, é roubo.
    
    Agora, tente responder as perguntas que proponho com toda a sinceridade:
- Quando sua filha chega em casa com uma bonequinha diferente e você pergunta de onde veio, ao que ela responde que “achou” na escola, qual sua atitude?
- Na prova de literatura, a professora pede a leitura de um livro com 120 páginas, e seu filho diz que está tranquilo, pois encontrou um resumo de 2 páginas na internet, o que você diz?
- A melhor amiga de sua filha liga para sua casa e pergunta por ela. Sua filha, de frente para você, faz sinal para que você diga que ela não está. Você concorda?
- Você vai ao supermercado com seu filho e ele pega um pacote de salgadinhos, abre, come o que quer e deixa a embalagem vazia na prateleira. Você permite?
- Caminhando numa praça, vocês de deparam com um cão deitado, seu filho dá um chute na criaturinha que fica ganindo de dor, qual sua reação?

    Se você já viveu alguma dessas situações com seus filhos, alunos, sobrinhos ou qualquer criança com quem tenha algum laço afetivo, e não reagiu, não conversou e não puniu quando deveria, tenho que dizer que lamento.

    Lamento, pois uma oportunidade de aprendizado foi perdida.
    Lamento, porque uma criança é uma página em branco, ávida por ser preenchida com belas histórias e experiências enriquecedoras.
    Lamento, porque é na infância que construímos a base sólida da personalidade de um ser humano.

    E no futuro, você, que nada fez, não poderá espantar-se com jovens que ateiam fogo em mendigos, com assassinos cruéis que não poupam nem os pais, com políticos corruptos que se apropriam do dinheiro público, ou com o vizinho lavando a rua em tempos de racionamento.

    E para encerrar, retorno à primeira reflexão:


Que tipo de filhos estamos deixando para o nosso mundo?

"Educar é tarefa permanente. E, evidentemente, não se dá apenas em sala de aula. Escolarização é uma parte da Educação. Formar pessoas é uma atividade que demanda fazer bem aquilo que se faz e fazer o bem com aquilo que se faz. Não se trata de jogo de palavras, mas de firmeza de propósito. Fazer bem é questão de competência. Fazer o bem é empreender esforço e energia para tornar a vida boa para todos e todas. Tem a ver com a construção do futuro que queremos, para não apequenarmos nossa Vida!" (Cortella, Mário Sérgio. Educação, convivência e ética. Audácia e Esperança). Mário Sérgio Cortella

(Para ajudar os pais e educadores na tarefa de ensinar os valores humanos a seus filhos e alunos, veja em “Análise de Livros” uma dica imperdível!)


sexta-feira, 20 de maio de 2016

Leitores escassos

   
    Hoje me deparei com uma notícia triste: o número de leitores no Brasil vem caindo nas últimas décadas. As explicações para isso são as esperadas: facilidade de acesso à tecnologia como TV a cabo, internet, celulares, etc. Poderíamos até concordar, em termos, com essa explicação. Mas fiquei imaginando que, um sujeito que gosta realmente de ler, não troca seu livro por um e-book no tablet. Aquele cheiro do papel ao folhear as páginas é impagável. Creio que o bom leitor vive uma história de amor com seu livro.
    Mas como despertar esse amor nas crianças? Para começar, desperte isso em você mesmo. Pais que não gostam de ler, dificilmente terão filhos amantes da leitura. Encontre um livro pelo qual você se apaixone, que te faça ler devagar para a leitura durar mais. Visite uma biblioteca, uma livraria, uma feira de livros. Mas faça isso sozinho ou sozinha. E então, leve seu filho para escolher e adquirir um livro. Deixe-o escolher. E leia para ele, uma, duas, dez vezes se assim ele quiser. Faça isso sempre, e logo vocês terão uma biblioteca, de onde poderão tirar muitas histórias e aventuras. 
    Uma boa dica é visitar as feiras de livros, onde é possível encontrar ótimos títulos a preços muito acessíveis. (confira a agenda da feira Book Lovers Kids)

    Conversem sobre os livros que leram, juntos ou individualmente. As crianças maiores, em especial os adolescentes, costumam evitar as conversas em família, e esta é uma forma de aproximá-los. Aliás, essa também é uma ótima oportunidade de conversar sobre os valores, as atitudes corretas, os sentimentos, pois através dos personagens dos livros, é possível falar sobre diversos assuntos, sem ter que “personificar” a questão.
    Torne a leitura algo prazeroso. Ler o livro que a professora mandou pode ser interessante se, desde bebê, a criança for estimulada a ler.
    Não selecionem livros por gênero: livros de “meninas” e livros de “meninos”. Ambos podem ler as mesmas histórias, dependendo do gosto pessoal.
    Criem coisas diferentes para os livros adquiridos: uma estante feita por vocês, marcadores divertidos (veja em Book Lovers Kids), dedicatórias, e o que mais sua imaginação mandar.
    Não escolham um livro somente pela beleza da edição. Atentem também para o conteúdo, o vocabulário, e a faixa etária a qual pertence. Além disso, aproveitem para escolher narrativas que tratem de temas que possam influenciar positivamente na aquisição dos valores básicos da conduta humana. Neste sentido, as histórias clássicas e as fábulas são muito apropriadas.
    A leitura traz inúmeros benefícios para qualquer ser humano: estimula a criatividade e a imaginação, aumenta o vocabulário, favorece novas aprendizagens, facilita à interpretação de textos diversos, melhora a escrita, estimula o cérebro, e ainda contribui para o desenvolvimento da capacidade critica da pessoa.
    Porém, como diz Daniel Pennac, “o verbo ler não suporta o imperativo”.  Ler por obrigação só vai tornar o ato entediante e sofrível.
    O leitor tem que ter paixão, envolvimento, um caso de amor com a leitura. Está criado aí um vínculo indissolúvel, onde o leitor não consegue e não quer mais viver sem a leitura.
    O objetivo maior deste blog é despertar essa paixão pela leitura, através de orientações aos pais e educadores. E paixão não é algo que se ensina, mas sim, que se desperta.  É claro que trataremos de assuntos diversos, na área da educação, das artes e tantas outras. Mas, acima de tudo, queremos acordar os leitores escondidos dentro das pessoas, para mudarmos a triste estatística que iniciou este post.




“Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles [...] que passamos na companhia de um livro preferido. [...] Depois que a última página era lida, o livro tinha acabado. Era preciso parar a corrida desvairada dos olhos e da voz que seguia sem ruído, para apenas tomar fôlego, num suspiro profundo. [...] Queríamos tanto que o livro continuasse, e, se fosse impossível, obter outras informações sobre todos os personagens, saber agora alguma coisa de suas vidas, empenhar a nossa em coisas que não fossem totalmente estranhas ao amor que eles nos haviam inspirado e de cujo objeto de repente sentíamos falta, não ter amado em vão, por uma hora, seres que amanhã não seriam mais que um nome numa página esquecida, num livro sem relação com a vida e sobre cujo valor nos enganamos totalmente [...].” (PROUST, Marcel. Sobre a leitura. Campinas: Pontes, 1989. Tradução: Carlos Vogt. p. 9, 22‐24.) (Fragmento).

quinta-feira, 19 de maio de 2016

LIMITE - determinando o que é certo e errado.


    Quando temos um filho, começa o árduo trabalho de educá-lo. Digo árduo porque, na maioria das vezes, educar não é fácil.   

    Algumas vezes pode doer na alma. Mas é necessário entender que é a tarefa dos pais ensinar, educar, impor limites, para que seu filho consiga viver em sociedade.

    Procurando no dicionário, a palavra LIMITE pode ter o seguinte significado: Fronteira; linha que, real ou imaginária, delimita e separa um território de outro. Portanto, é o limite que determina a fronteira entre o que é certo do que é errado, do se pode ou não fazer.

    A priori, toda criança nasce sem saber o que isso significa. E desde muito pequena, ela vai testar até onde pode ir, e cabe aos pais a decisão de limitar no momento em que for preciso.

    Escuto diariamente os pais dizerem: - Mas ele é tão pequenininho! Não entende ainda! – mas não se engane. As crianças compreendem e até gostam de ter alguém que as limite, pois isso faz com que elas se sintam seguras. Nenhuma criança vai crescer traumatizada porque recebeu um “não” de seus pais, tampouco vai guardar péssimas lembranças da infância porque ficou de castigo. Ao contrário, essa é a única forma de ensinar como se comportar em sociedade, respeitando regras, horários, ordens, etc.

    Obviamente, e como tudo na vida, é preciso agir com equilíbrio: não é preciso ser rígido demais, e nem permissivo. Mas não se pode “relaxar”. A educação de uma criança deve acontecer em qualquer lugar e em qualquer circunstância, seja na casa dos avós, no restaurante ou na rua, os pais devem agir seguindo sempre uma linha de pensamento. Ou seja, se a criança, em casa, não pode ver TV enquanto come, na casa da vovó também não vai poder. Ou ainda, se os pais combinaram que, no supermercado, a criança poderia escolher apenas uma guloseima, não se pode aceitar que ela termine escolhendo três. É preciso ter coerência ao tomar uma decisão com relação à educação, pois se os pais cedem, o ensinamento já foi perdido.

    É muito comum ver crianças sendo mal educadas e os pais as desculpando: - Ah ela está com sono! Ou – Ele está mal humorado hoje. E a criança cresce achando que esses argumentos são suficientes para desculpar suas más-criações. (Segundo o dicionário: s.f. Comportamento ou ação grosseira; atitude indelicada ou desrespeitosa; malcriação. Característica ou particularidade de quem é malcriado.pl. más-criações ou má-criações).

    Acontece que, lá na frente, quando seu filho já for um adolescente, o professor de física não vai querer saber de que jeito ele acordou, se der uma resposta mal dada. E nem o guarda de trânsito vai querer saber se ele está com sono ou não. As regras serão cobradas, e a sanções aplicadas.

    O respeito ao outro, a obediência às regras, a cordialidade e a gentileza, são ensinamentos valiosos que somente a família pode dar a uma criança, seja através dos limites, dos ensinamentos e principalmente pelo exemplo.

    Os pais não podem e nem devem se sentir culpados ao impor os limites que julgam certos aos seus filhos. As regras, baseadas nos valores que os pais acreditam serem as corretas, devem ser colocadas às crianças com clareza e sinceridade. Jamais minta, mesmo que seja uma mentira inocente. 

   
    Comece colocando limites à sua criança desde bebê: ao coloca-lo para dormir, diga que é noite e que precisamos dormir a noite. A sua tranquilidade, firmeza e respeito à rotina vão começar a delimitar o seu bebê, naturalmente. Por fim, respeite a faixa etária da sua criança. Se ela tem 2 anos, provavelmente não conseguirá tomar banho sozinha por exemplo, mas já é capaz de juntar os brinquedos que usou. Aja com bom senso e coerência, sempre!

    Para terminar, deixo aqui um texto que recebi, cujo autor é desconhecido, que fala justamente sobre o que tratei neste post. Vale a pena a leitura e a reflexão! (Se alguém souber quem é autor, por favor me informe nos comentários).

MERTHIOLATE

    Quem tem um pouco mais de “experiência”, para não dizer idade, ainda é capaz  de lembrar do ardor causado pelo Merthiolate, que é um antisséptico para ferimentos.
    Eu, moleca que era, vivia ralando os joelhos, cotovelos e o que mais conseguisse, e não sei o que era pior: a dor do ferimento ou o ardor do Merthiolate.
    Ainda ouvia da minha mãe que “se ardia era bom porque estava matando as bactérias”. Ela nunca assoprava, o que na época, eu achava sádico, mas hoje sabemos que era sábio, afinal, quando se assopra uma ferida, podemos infectá-la ainda mais com as bactérias presentes na boca.
    Enfim, cair primeiro doía e depois ardia.
    Com o tempo, o Merthiolate criou uma fórmula que não arde. Não arde.
    Com o tempo, não permitimos que nossos filhos sintam nem o ardor do Merthiolate, nem os ardores da vida.
    Estamos criando uma geração que não sabe o que é ardor, fome, sede, espera, paciência.
    Carregamos um kit completo anti “pitis” na bolsa, com água, bolachas, celular, tablet, caderno, lápis, analgésico. Nossos filhos não podem esperar. 
Esperar meia hora, quarenta minutos por uma comida? Jamais! Dez minutos por uma água? Não! Não podem ir a restaurantes sem espaço para crianças porque não suportarão a permanência no local.
    O que estamos criando?
    Nossas esperas foram boas e até hoje a vida nos ensina a esperar.
    Certamente, nesse exato momento, você está esperando por algo: uma cura, uma promoção, uma ligação, comprar uma casa, um carro, uma viagem, engravidar, um namorado, qualquer coisa. Você está esperando. E sua mãe não tem a solução de seus problemas na bolsa dela…
    As crianças devem e podem esperar. Nós, como pais, temos a obrigação de ensiná-los a esperar porque temos que prepará-los para a vida como ela é.
    A criança tem uma necessidade, fica chata, não temos paciência e damos o que ela quiser. Qualquer coisa.
    Ferrari? Paris? Gucci? Qualquer coisa, mas pare de birra!
    E assim, nossa baixa resistência aos apelos dos filhos nos levam ao erro.
    Nada mais arde. Nem Merthiolate.
    Na verdade, tudo continua ardendo, apenas damos-lhes a falsa sensação de que nada mais arde, de que tudo é imediato.
    É isso que queremos ensinar?
    Reflita.
(autor desconhecido)






segunda-feira, 16 de maio de 2016

Mamãe, eu estou com medo!!

   
    Toda criança, ou pelo menos a grande maioria delas, passa por uma fase em que sente muito medo. Esse sentimento assustador faz parte da natureza humana. Ele é importante, pois ativa os sinais de alerta do corpo, que nos permitem correr de um perigo iminente por exemplo. É um sentimento primitivo e involuntário.

    
    O desafio é saber lidar com o medo, os seus próprios e os das crianças. Em alguns casos, o medo dos pais ou adultos mais próximos é transferido às crianças, não de propósito obviamente.
    
    Existem pais que reagem censurando o medo de seus filhos, outros que compreendem, mas na ânsia de proteger a criança, acabam por alimentar o sentimento.
    
    Antes de tudo, vale lembrar que o medo é um fator importante para o desenvolvimento psicológico da personalidade e o amadurecimento da criança.
    
    O primeiro passo para amenizar o problema é identificar o medo. Existem os clássicos: medo de escuro, da Cuca, do “homem do saco”, do lobo mal, da bruxa. Esses são estereótipos tradicionais que fazem parte do universo infantil. Alguns medos são passageiros, e referem-se a uma situação vivida pela criança, como por exemplo, se ela se perdeu no shopping e vai passar um tempo com medo de perder os pais do seu campo de visão. Há ainda os medos que são administráveis, ou seja, basta a presença de um adulto de sua confiança que a criança se tranquiliza. O problema é quando o medo modifica o comportamento da criança e a perturba. São os medos que aterrorizam, que fazem a criança dormir mal, ou não dormir, que a impedem de realizar suas atividades normais e fundamentais do cotidiano. Esses últimos merecem atenção especial, pois causam grande sofrimento e podem prejudicar o desenvolvimento da criança.

    Os medos mais comuns, de acordo com a faixa etária são:

De 0 a 6 meses: barulhos fortes, luzes intensas, falta de colo.
De 7 a 12 meses: pessoas estranhas, separação dos pais ou cuidadores, ruídos agudos.
2 anos: separação dos pais ou cuidadores, perder seu objeto de estimação (brinquedo, cobertor, fralda, chupeta), locais estranhos, barulhos desconhecidos.
3 e 4 anos: separação dos pais ou cuidadores, pessoas fantasiadas de personagens (palhaço, Homem-Aranha, etc), escuro.
5 anos: separação dos pais ou cuidadores, personagens das histórias clássicas e do folclore: lobo mal, bruxa má, saci-pererê, acidentes, pessoas más.
6 a 8 anos: separação dos pais ou cuidadores, histórias sobrenaturais, tempestades, escuro, ficar sozinho, tragédias, filmes.
9 aos 12 anos:
medos com relação a escola como provas, reprovação, bullying, fenômenos naturais (trovoadas, terremotos, inundações), morte das pessoas próximas, briga dos pais.

    Têm medos que são protetores: medo de altura e de fogo, por exemplo, podem evitar diversos acidentes.

    Mas qual seria a melhor maneira de lidar com essas situações?
  1. Jamais subestimem o medo do seu filho. Dizer displicentemente que é bobagem ter medo de bicho papão, que ele não existe, não vai melhorar a situação.
  2. Deixem que expresse seu sentimento, estimulem-no a nomear seu medo. Conversar sobre o problema, de forma tranquila, pode ajudar a minimizá-lo.
  3. Estejam presentes quando seu filho manifestar seu medo, sem demonstrar ansiedade ou irritação. Essa atitude pode ter um efeito tranquilizador imediato.
  4. Evitem comparações: o filho mais novo, os primos ou mesmo vocês, não tiveram medo disso ou daquilo, mas isso não vai fazer o medo desaparecer. Pior, pode até aumenta-lo, já que as comparações são uma forma de diminuir a autoestima da criança.
  5. Dizer: “Vamos! Seja Corajoso! Enfrente seu medo!” pode transformar o medo em terror e piorar ainda mais a situação.
  6. Evitem os filmes, desenhos e livros que trazem histórias de terror. A imaginação da criança pode trazer essas histórias para a realidade dela e então o que era ruim, pode ficar pior.
  7. Deixem claro para os pequenos que o Lobo Mal só existe na história da Chapeuzinho Vermelho, assim como a bruxa má da Branca de Neve.
  8. Jamais amedrontem seus filhos para controla-los. Dizer: “Não saia na rua, pois o homem do saco vai te levar embora!” vai ajudar vocês a controla-los, porém não vai educar. O mais adequado é explicar os reais perigos que existem nas ruas e por isso eles não devem sair sozinhos. Afinal, a realidade já é amedrontadora o suficiente, não?
    O que se pretende alcançar com essas atitudes, é que a criança consiga dominar seus medos e nunca ser dominada por eles. Como foi dito acima, ele é um sentimento natural e importante para o desenvolvimento do ser humano, desde que não seja patológico. Se identificar terror ou pânico, vale a pena consultar um psicólogo para orientar pais e filhos na superação do problema.

Para saber mais, leiam também: "Como lidar com os medos infantis"por Clarissa Passos, IG São Paulo.
E vejam o vídeo “Como lidar com o medo nas crianças” com a Psicóloga Daniella Faria

Nas "Dicas de Leitura", O Grande Livro do Medo vem recheado de histórias!




sexta-feira, 13 de maio de 2016

Meu filho não mente!

   
   Muitos pais dizem com frequência: Meu filho não mente! Sinto decepcioná-los, mas sim, as crianças mentem. Algumas fazem isso da forma mais inocente do mundo, outras nem tanto. Trabalhando com crianças há tanto tempo, digo por experiência que já presenciei crianças mentindo por motivos diversos. Existem crianças que mentem porque fantasiam uma situação, outras interpretam os acontecimentos com seu conhecimento infantil que nem sempre corresponde a verdade ou a realidade. Mas já vi crianças mentindo para manipular as pessoas e assim conseguirem o que desejam, outras mentindo para prejudicar um colega, há algumas que mentem para proteger os irmãos, os pais ou os amigos.

    Vou exemplificar para que possam compreender melhor essa questão:

Caso 1: As crianças, de 4 anos, estão brincando de corre-cotia, em roda. O “pegador” tenta pegar o colega e acaba empurrando-o, sem querer.  A professora corre para levantar a criança caída, que ao se virar se depara com ela, a professora. Ao chegar em casa, com um ferimento nos lábios (nada sério, claro), conta para os pais que a professora a empurrou. Pior, os pais acreditam, e antes de verificar a história na escola, chamam a polícia. Muitas audiências depois, fica comprovado que a professora é inocente. Nesse caso, a criança interpretou os fatos de acordo com o que viu: ela caiu e, ao se virar, a professora estava lá, bem atrás dela. Logo, o que pensou foi que a professora a empurrou.

Caso 2: Crianças (de qualquer idade) que fingem estar passando mal para manipular os pais e obterem o que querem, já vi vários casos desse tipo! O problema é que alguns pais, mesmo sem acreditar que a criança realmente esteja passando mal, cedem aos desejos dos filhos para não se sentirem culpados depois. Pensam: - E se dessa vez for verdade?

Caso 3: A criança se sai mal nas provas e recebe o boletim da escola cheio de notas vermelhas, ou com uma nota vermelha, que seja! Com medo da reação dos pais, esconde o documento, na tentativa de postergar a bronca que certamente irá levar. Pode ser que os pais perguntem pelo boletim, e a criança diz que ainda não foi entregue. Isso começa a acontecer por volta dos 9 anos.

Caso 4: A criança passa o dia todo na escola. Ao chegar em casa, por vários dias seguidos, diz que outras crianças bateram nela. Os pais chegam à escola dispostos a chamar o exército, as forças armadas, o que for. Lá, escutam das professoras e da equipe gestora, que nada aconteceu, nenhuma vez. Algumas vezes os pais acreditam, em outras não e aí o caso se transforma numa grande confusão. Com isso, pode ser que a criança queira chamar a atenção dos pais para si, está carente, é como um pedido de socorro.

    Estas são algumas situações que eu presenciei, direta ou indiretamente, não só no meu trabalho, mas na vida pessoal também.

    Não precisam pensar que seus filhos mentem, indiscriminadamente, a todo o momento. Até pode ser, em algum caso, mas isso já seria considerado um desvio de conduta.

    O objetivo desse texto é simplesmente mostrar aos pais que pode ser que seus filhos mintam sim, uma vez ou outra, e não é preciso se desesperar por isso.

    A nossa tarefa é ensinar, desde muito pequenos, que não é certo mentir, mostrar as consequências que isso pode causar, e conversar, sempre.

    As histórias são uma ótima forma de auxiliar nessa tarefa. Quem nunca teve medo de que seu nariz crescesse se contasse uma mentira? Pinóquio pode ensinar às crianças o quanto a mentira pode prejudicar as pessoas que amamos e a nós mesmos, ainda que o nosso nariz continue do mesmo tamanho.

    As pequenas mentiras irão acontecer, quase com certeza. E faz parte do desenvolvimento da personalidade e do caráter de qualquer criança. 

    Para encerrar, fiquem atentos às dicas de como reagir se acontecer da sua criança mentir:

- Se descobrir a verdade, corrija a criança.
- Seja firme e explique que não podemos mentir.
- Preste atenção ao que os adultos que ficam com a sua criança estão dizendo. E use o bom senso para acreditar ou não.
- Ouça as explicações, os argumentos, e se for o caso, as desculpas.
- Perdoe, mas oriente!

Para quem se interessou pelo assunto, veja mais em Marcos Meier e a mentira para crianças