Há tanto tempo trabalhando
na área da educação, venho me surpreendendo com as transformações que tem
acontecido nas escolas de educação infantil. Crianças de 3 anos que já escrevem
seu nome, reconhecem todo o alfabeto, contam até 30 com desenvoltura, e algumas
até arriscam umas palavrinhas em inglês. Qualquer um que se depare com uma
criança assim pensará imediatamente: Uau! Que esperta! Mas não é bem assim.
Para começar, quais são os
objetivos da educação infantil? Quais os conhecimentos e metas que essa etapa
do ensino propõe?
De acordo com o Referencial
Curricular Nacional (RCNEI Vol.1, pág.63), elaborado pelo MEC (Ministério da
Educação e Cultura) os objetivos gerais da educação infantil são:
• desenvolver uma imagem positiva de si, atuando de forma
cada vez mais independente, com confiança em suas capacidades e percepção de
suas limitações;
• descobrir e conhecer progressivamente seu próprio
corpo, suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo e valorizando hábitos
de cuidado com a própria saúde e bem-estar;
• estabelecer vínculos afetivos e de troca com adultos e
crianças, fortalecendo sua autoestima e ampliando gradativamente suas
possibilidades de comunicação e interação social;
• estabelecer e ampliar cada vez mais as relações
sociais, aprendendo aos poucos a articular seus interesses e pontos de vista
com os demais, respeitando a diversidade e desenvolvendo atitudes de ajuda e
colaboração;
• observar e explorar o ambiente com atitude de
curiosidade, percebendo-se cada vez mais como integrante, dependente e agente
transformador do meio ambiente e valorizando atitudes que contribuam para sua
conservação;
• brincar, expressando emoções, sentimentos, pensamentos,
desejos e necessidades;
• utilizar as diferentes linguagens (corporal, musical,
plástica, oral e escrita) ajustadas às diferentes intenções e situações de
comunicação, de forma a compreender e ser compreendido, expressar suas ideias,
sentimentos, necessidades e desejos e avançar no seu processo de construção de
significados, enriquecendo cada vez mais sua capacidade expressiva;
• conhecer algumas manifestações culturais, demonstrando
atitudes de interesse, respeito e participação frente a elas e valorizando a
diversidade.
Resumindo, na educação
infantil, o que se pretende desenvolver nas crianças é a autonomia, a
linguagem, a socialização, a comunicação, a curiosidade, o controle das emoções
e o conhecimento de si mesmo. É claro que aos 4 anos é importante que as
primeiras letras e números sejam apresentados, que o primeiro nome da criança
seja trabalhado para que a ela saiba reconhecê-lo, e até para escrevê-lo, mas o
que tem acontecido é a alfabetização propriamente dita das crianças. E o que
resulta disso é que os objetivos reais estão sendo deixados de lado.
Falando de forma prática, a
escola tem se tornado um lugar de aprender a ler, escrever e calcular. As
crianças copiam tudo com uma letra linda, mas não sabem pular corda, não
conseguem expressar suas emoções de forma adequada, não têm uma imagem bem formada
de si mesmas, não conseguem se organizar, não sabem se localizar no espaço e
nunca ouviram falar de corre-cotia ou barra manteiga.
A escola de educação
infantil também precisa ser um lugar de brincar, de compartilhar e fazer
amigos. É nessa fase, de zero a seis anos, que a personalidade da criança está
se formando. E todos os valores e aprendizados que a criança adquirir nesta
idade, influenciarão sua vida inteira.
É tarefa dos pais escolher
uma escola onde seus filhos tenham a oportunidade de brincar, de aprender a
conviver com seus coleguinhas, de descobrir coisas novas e mágicas como, por
exemplo, “como vivem as formiguinhas” ou como a bela borboleta, um dia foi uma
lagarta.
A escola de educação
infantil precisa ir muito além das letras e números, ela deve ter o poder de
encantar, de despertar os sonhos e fantasias das crianças, de multiplicar
alegria, dividir emoções, somar descobertas e subtrair as angústias e
inseguranças comuns desta fase.
Para completar esse assunto,
compartilho um belíssimo texto de Robert Fulghum, que descreve exatamente como
a escola de educação infantil nos ensina coisas para a vida inteira.
TUDO
QUE EU PRECISO SABER APRENDI NO JARDIM DA INFÂNCIA.
De: Robert Fulghum
Tudo o que eu preciso saber
sobre a vida, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim da infância. A
sabedoria não estava no topo da montanha do conhecimento que é a faculdade, mas
sim, no alto do monte de areia do Jardim da Infância.
Essas são algumas coisas que
aprendi:
Dividir tudo. Ser justo. Não
machucar ninguém. Colocar as coisas de volta no lugar de onde foram tiradas.
Arrumar a própria bagunça. Nunca pegar o que não é seu. Pedir desculpas sempre
que magoar alguém. Lavar as mãos antes das refeições. Dar descarga. Leite com
bolachas fazem bem a nossa saúde.
Viver uma vida balanceada:
Aprender um pouco, desenhar um pouco, pintar um pouco, cantar um pouco, brincar
um pouco e trabalhar um pouco todos os dias. Tirar uma soneca todas as tardes.
Quando sair na rua, olhar os carros, dar as mãos e ficar junto.
Lembra daquela sementinha de
feijão no potinho de Danone? As raízes crescem para cima e ninguém sabe com
certeza como ou porque, mas todos são exatamente como ela.
Peixinhos, passarinhos,
gatinhos e cachorrinhos e até a sementinha de feijão todos morrem, assim como
nós. E então se lembre dos livros de Chapeuzinho Vermelho e das primeiras
palavras que você aprendeu. As maiores de todas: Mamãe e Papai.
Tudo o que você precisa está
lá em algum lugar. Regras sobre a vida, o amor, saneamento básico, ecologia,
política, igualdade e fraternidade.
Pegue qualquer um desses
termos e extrapole para sofisticadas palavras da linguagem adulta e então
aplique em sua vida familiar, trabalho, governo ou mundo, e tudo continua firme
e verdadeiro.
Pense como o mundo seria
melhor se todos nós – o mundo inteiro - tomasse leite com bolachas às três da
tarde, todas as tardes e depois deitássemos com nossos travesseirinhos no sofá
da sala para uma soneca.
Ou então, se todos os
governos tivessem como política básica sempre colocar as coisas de volta no
lugar de onde foram tiradas e também sempre arrumar suas próprias bagunças.
E continua verdade, não
importa a idade, quando sair para o mundo dê as mãos e fique junto.