Sim, este é um dado assustador: a cada 11 minutos, uma
mulher é estuprada no Brasil.
Uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de 30
homens no Rio de Janeiro. Questiono o que leva um ser humano a fazer isso com o
outro, o que passou pela cabeça desses mais de 30 homens para praticarem essa
barbárie. Lendo as notícias na internet, encontro comentários de apoio à
vítima, e outros que a transformam em culpada: “O que essa garota foi fazer
nesse lugar a noite?”, “Onde estavam os pais dela?”, “Como os pais deixam uma
garota de 16 anos se relacionar com esse tipo de homem?”. A verdade é que não
há o que julgar, porque não existe nada que justifique a violência sofrida por
essa menina.
Alguns fatos são verdadeiros: a infância tem ficado cada
vez menor, os adolescentes têm se erotizado cada vez mais cedo em parte por
conta da TV, e o primeiro beijo, a primeira relação amorosa acontece quando não
existe maturidade suficiente para isso. Nem fisicamente, nem neurologicamente. Um
adolescente de 16 anos não conhece os limites do seu próprio corpo, quem pode
ver ou tocar, e de que forma. Acredito que o estupro acontece até sem que a
garota saiba que está sendo estuprada. Ela sabe que foi uma violência, sabe que
a fez sofrer, mas não entende como estupro. E por esse motivo, não denuncia,
não conta para ninguém. Portanto os números, que já são alarmantes, podem ser
ainda maiores.
E de quem é a culpa? Dos pais? Da garota que usa um
vestido curto? Não! A culpa é e sempre será de quem estuprou. A culpa é da
mente doentia do estuprador. A culpa é da desvalorização da mulher e da
sociedade machista. A culpa é daquele que vê na mulher um objeto. A culpa é das
pessoas que pensam que porque a mulher está usando uma roupa mais justa, está
se expondo ao estupro.
A garota saiu de casa para se encontrar com seu namorado,
e porque ele achava que havia sido traído, resolveu se vingar, primeiro dopando
a menina e depois convidando mais de 30 “amigos” para estupra-la. Isso não é “instinto
animal”. Animais irracionais não fazem esse tipo de coisa. Isso é típico do
pior tipo de humano que pode existir no mundo.
Hoje eu senti vergonha de ser humana. Senti nojo,
repulsa, ódio, horror e pena. Pena por essa menina que teve sua vida dilacerada
pelo desrespeito e pela maldade. Onde é que vamos parar? Que mundo estamos
deixando para essas crianças e adolescentes que estão aí, vulneráveis, e
sujeitos a este tipo de violência?
O presidente em exercício Michel Temer está disposto a criar
políticas públicas para combater a violência contra a mulher. Mas essa não é a
solução. A solução poderia ser investir na educação. Talvez educando as
crianças e adolescentes, falando sobre a sexualidade e as formas de violência
que uma mulher pode sofrer, minimizaria o problema. O conhecimento pode tornar
essas futuras mulheres mais cientes, menos omissas. Mostrar às meninas o valor
que elas têm, pode mudar a forma como elas se relacionarão com os homens
futuramente. Porém isso pode levar tempo.
Enquanto isso, a cada 11 minutos, outras garotas serão
estupradas, violentadas, e até mortas, por esses seres humanos deploráveis.
Encerro esse post com um texto escrito por Luara Colpa,
brasileira, 28 anos, feminista, para “Bia”, a garota estuprada:
Trinta
Homens
Trinta. Vinte e nove. Vinte e oito. Vinte e sete. Vinte e
seis. Vinte e cinco. Vinte e quatro. Vinte e três. Vinte e dois. Vinte e um.
Vinte. Dezenove. Dezoito. Dezessete. Dezesseis. Quinze. Quatorze. Treze. Doze.
Onze. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Nenhum.
Eu tiraria todos – um por um – de cima de você neste
momento, irmã.
Eu limparia seu corpo, tiraria o som dos seus ouvidos, o
cheiro deste lugar, as lembranças.
Se o tempo voltasse, eu os impediria de terem saído de
casa. Todos eles. Eu desligaria os celulares, os computadores, tiraria baterias
dos carros, dos ônibus. Eu faria feitiço, veneno, poção, dor de barriga para
todos.
Trinta. Eu te levantaria daí e te levaria pra ver o pôr
do Sol no Arpoador, se o mundo girasse ao contrário… Mas o mundo não gira.
Foram Trinta. Um ex-companheiro e vinte e nove “amigos”.
Nenhum deles se compadeceu. Vinte e nove seres humanos toparam se unir a um
criminoso. Trinta. Trinta e um agora compartilharam. Trinta e dois riram.
Trinta e três justificaram. Trinta e quatro se excitaram, trinta e cinco
procuram o vídeo neste momento. Agora o número se torna uma projeção
geométrica.
A misoginia
aparenta infinita, o ódio e o machismo aparentam grandiosos demais. A primeira
reação do público masculino em geral é ver o vídeo. No entanto, quando pensei
que fôssemos só nós duas, olhei para o lado e vi três, quatro, cinco. Chegaram
seis, sete, oito, trinta. Em segundos fomos noventa, cem, mil, somos milhares
por você.
Aquele som, aquele cheiro… Queremos que sua memória apague
mana! E que o mundo nos ouça: “A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA”. Que ecoe. Que ecoe:
Daqui vocês não passam. Não passarão. Que cada uma de nós seja porta voz do
ocorrido. Se a grande mídia não denuncia a violência contra a mulher
periférica, que nossas mãos sejam denúncia. Na violência contra a mulher todas
metemos a colher. DENUNCIE.


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