sexta-feira, 27 de maio de 2016

Um estupro a cada 11 minutos

    Sim, este é um dado assustador: a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil.

    Uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de 30 homens no Rio de Janeiro. Questiono o que leva um ser humano a fazer isso com o outro, o que passou pela cabeça desses mais de 30 homens para praticarem essa barbárie. Lendo as notícias na internet, encontro comentários de apoio à vítima, e outros que a transformam em culpada: “O que essa garota foi fazer nesse lugar a noite?”, “Onde estavam os pais dela?”, “Como os pais deixam uma garota de 16 anos se relacionar com esse tipo de homem?”. A verdade é que não há o que julgar, porque não existe nada que justifique a violência sofrida por essa menina.

    Alguns fatos são verdadeiros: a infância tem ficado cada vez menor, os adolescentes têm se erotizado cada vez mais cedo em parte por conta da TV, e o primeiro beijo, a primeira relação amorosa acontece quando não existe maturidade suficiente para isso. Nem fisicamente, nem neurologicamente. Um adolescente de 16 anos não conhece os limites do seu próprio corpo, quem pode ver ou tocar, e de que forma. Acredito que o estupro acontece até sem que a garota saiba que está sendo estuprada. Ela sabe que foi uma violência, sabe que a fez sofrer, mas não entende como estupro. E por esse motivo, não denuncia, não conta para ninguém. Portanto os números, que já são alarmantes, podem ser ainda maiores.

    E de quem é a culpa? Dos pais? Da garota que usa um vestido curto? Não! A culpa é e sempre será de quem estuprou. A culpa é da mente doentia do estuprador. A culpa é da desvalorização da mulher e da sociedade machista. A culpa é daquele que vê na mulher um objeto. A culpa é das pessoas que pensam que porque a mulher está usando uma roupa mais justa, está se expondo ao estupro.

    A garota saiu de casa para se encontrar com seu namorado, e porque ele achava que havia sido traído, resolveu se vingar, primeiro dopando a menina e depois convidando mais de 30 “amigos” para estupra-la. Isso não é “instinto animal”. Animais irracionais não fazem esse tipo de coisa. Isso é típico do pior tipo de humano que pode existir no mundo.

    Hoje eu senti vergonha de ser humana. Senti nojo, repulsa, ódio, horror e pena. Pena por essa menina que teve sua vida dilacerada pelo desrespeito e pela maldade. Onde é que vamos parar? Que mundo estamos deixando para essas crianças e adolescentes que estão aí, vulneráveis, e sujeitos a este tipo de violência?

    O presidente em exercício Michel Temer está disposto a criar políticas públicas para combater a violência contra a mulher. Mas essa não é a solução. A solução poderia ser investir na educação. Talvez educando as crianças e adolescentes, falando sobre a sexualidade e as formas de violência que uma mulher pode sofrer, minimizaria o problema. O conhecimento pode tornar essas futuras mulheres mais cientes, menos omissas. Mostrar às meninas o valor que elas têm, pode mudar a forma como elas se relacionarão com os homens futuramente. Porém isso pode levar tempo.

    Enquanto isso, a cada 11 minutos, outras garotas serão estupradas, violentadas, e até mortas, por esses seres humanos deploráveis.

    Encerro esse post com um texto escrito por Luara Colpa, brasileira, 28 anos, feminista, para “Bia”, a garota estuprada:

Trinta Homens

Trinta. Vinte e nove. Vinte e oito. Vinte e sete. Vinte e seis. Vinte e cinco. Vinte e quatro. Vinte e três. Vinte e dois. Vinte e um. Vinte. Dezenove. Dezoito. Dezessete. Dezesseis. Quinze. Quatorze. Treze. Doze. Onze. Dez. Nove. Oito. Sete. Seis. Cinco. Quatro. Três. Dois. Um. Nenhum.
Eu tiraria todos – um por um – de cima de você neste momento, irmã.
Eu limparia seu corpo, tiraria o som dos seus ouvidos, o cheiro deste lugar, as lembranças.
Se o tempo voltasse, eu os impediria de terem saído de casa. Todos eles. Eu desligaria os celulares, os computadores, tiraria baterias dos carros, dos ônibus. Eu faria feitiço, veneno, poção, dor de barriga para todos.
Trinta. Eu te levantaria daí e te levaria pra ver o pôr do Sol no Arpoador, se o mundo girasse ao contrário… Mas o mundo não gira.
Foram Trinta. Um ex-companheiro e vinte e nove “amigos”. Nenhum deles se compadeceu. Vinte e nove seres humanos toparam se unir a um criminoso. Trinta. Trinta e um agora compartilharam. Trinta e dois riram. Trinta e três justificaram. Trinta e quatro se excitaram, trinta e cinco procuram o vídeo neste momento. Agora o número se torna uma projeção geométrica.
 A misoginia aparenta infinita, o ódio e o machismo aparentam grandiosos demais. A primeira reação do público masculino em geral é ver o vídeo. No entanto, quando pensei que fôssemos só nós duas, olhei para o lado e vi três, quatro, cinco. Chegaram seis, sete, oito, trinta. Em segundos fomos noventa, cem, mil, somos milhares por você.

Aquele som, aquele cheiro… Queremos que sua memória apague mana! E que o mundo nos ouça: “A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA”. Que ecoe. Que ecoe: Daqui vocês não passam. Não passarão. Que cada uma de nós seja porta voz do ocorrido. Se a grande mídia não denuncia a violência contra a mulher periférica, que nossas mãos sejam denúncia. Na violência contra a mulher todas metemos a colher. DENUNCIE.



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