segunda-feira, 27 de junho de 2016

O verdadeiro sentido da Educação Infantil


          Há tanto tempo trabalhando na área da educação, venho me surpreendendo com as transformações que tem acontecido nas escolas de educação infantil. Crianças de 3 anos que já escrevem seu nome, reconhecem todo o alfabeto, contam até 30 com desenvoltura, e algumas até arriscam umas palavrinhas em inglês. Qualquer um que se depare com uma criança assim pensará imediatamente: Uau! Que esperta! Mas não é bem assim.
Para começar, quais são os objetivos da educação infantil? Quais os conhecimentos e metas que essa etapa do ensino propõe?
De acordo com o Referencial Curricular Nacional (RCNEI Vol.1, pág.63), elaborado pelo MEC (Ministério da Educação e Cultura) os objetivos gerais da educação infantil são:
• desenvolver uma imagem positiva de si, atuando de forma cada vez mais independente, com confiança em suas capacidades e percepção de suas limitações;
• descobrir e conhecer progressivamente seu próprio corpo, suas potencialidades e seus limites, desenvolvendo e valorizando hábitos de cuidado com a própria saúde e bem-estar;
• estabelecer vínculos afetivos e de troca com adultos e crianças, fortalecendo sua autoestima e ampliando gradativamente suas possibilidades de comunicação e interação social;
• estabelecer e ampliar cada vez mais as relações sociais, aprendendo aos poucos a articular seus interesses e pontos de vista com os demais, respeitando a diversidade e desenvolvendo atitudes de ajuda e colaboração;
• observar e explorar o ambiente com atitude de curiosidade, percebendo-se cada vez mais como integrante, dependente e agente transformador do meio ambiente e valorizando atitudes que contribuam para sua conservação;
• brincar, expressando emoções, sentimentos, pensamentos, desejos e necessidades;
• utilizar as diferentes linguagens (corporal, musical, plástica, oral e escrita) ajustadas às diferentes intenções e situações de comunicação, de forma a compreender e ser compreendido, expressar suas ideias, sentimentos, necessidades e desejos e avançar no seu processo de construção de significados, enriquecendo cada vez mais sua capacidade expressiva;
• conhecer algumas manifestações culturais, demonstrando atitudes de interesse, respeito e participação frente a elas e valorizando a diversidade.

Resumindo, na educação infantil, o que se pretende desenvolver nas crianças é a autonomia, a linguagem, a socialização, a comunicação, a curiosidade, o controle das emoções e o conhecimento de si mesmo. É claro que aos 4 anos é importante que as primeiras letras e números sejam apresentados, que o primeiro nome da criança seja trabalhado para que a ela saiba reconhecê-lo, e até para escrevê-lo, mas o que tem acontecido é a alfabetização propriamente dita das crianças. E o que resulta disso é que os objetivos reais estão sendo deixados de lado.
Falando de forma prática, a escola tem se tornado um lugar de aprender a ler, escrever e calcular. As crianças copiam tudo com uma letra linda, mas não sabem pular corda, não conseguem expressar suas emoções de forma adequada, não têm uma imagem bem formada de si mesmas, não conseguem se organizar, não sabem se localizar no espaço e nunca ouviram falar de corre-cotia ou barra manteiga.
A escola de educação infantil também precisa ser um lugar de brincar, de compartilhar e fazer amigos. É nessa fase, de zero a seis anos, que a personalidade da criança está se formando. E todos os valores e aprendizados que a criança adquirir nesta idade, influenciarão sua vida inteira.
É tarefa dos pais escolher uma escola onde seus filhos tenham a oportunidade de brincar, de aprender a conviver com seus coleguinhas, de descobrir coisas novas e mágicas como, por exemplo, “como vivem as formiguinhas” ou como a bela borboleta, um dia foi uma lagarta.
A escola de educação infantil precisa ir muito além das letras e números, ela deve ter o poder de encantar, de despertar os sonhos e fantasias das crianças, de multiplicar alegria, dividir emoções, somar descobertas e subtrair as angústias e inseguranças comuns desta fase.
Para completar esse assunto, compartilho um belíssimo texto de Robert Fulghum, que descreve exatamente como a escola de educação infantil nos ensina coisas para a vida inteira.

TUDO QUE EU PRECISO SABER APRENDI NO JARDIM DA INFÂNCIA.
De: Robert Fulghum

Tudo o que eu preciso saber sobre a vida, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim da infância. A sabedoria não estava no topo da montanha do conhecimento que é a faculdade, mas sim, no alto do monte de areia do Jardim da Infância.
Essas são algumas coisas que aprendi:
Dividir tudo. Ser justo. Não machucar ninguém. Colocar as coisas de volta no lugar de onde foram tiradas. Arrumar a própria bagunça. Nunca pegar o que não é seu. Pedir desculpas sempre que magoar alguém. Lavar as mãos antes das refeições. Dar descarga. Leite com bolachas fazem bem a nossa saúde.
Viver uma vida balanceada: Aprender um pouco, desenhar um pouco, pintar um pouco, cantar um pouco, brincar um pouco e trabalhar um pouco todos os dias. Tirar uma soneca todas as tardes. Quando sair na rua, olhar os carros, dar as mãos e ficar junto.
Lembra daquela sementinha de feijão no potinho de Danone? As raízes crescem para cima e ninguém sabe com certeza como ou porque, mas todos são exatamente como ela.
Peixinhos, passarinhos, gatinhos e cachorrinhos e até a sementinha de feijão todos morrem, assim como nós. E então se lembre dos livros de Chapeuzinho Vermelho e das primeiras palavras que você aprendeu. As maiores de todas: Mamãe e Papai.
Tudo o que você precisa está lá em algum lugar. Regras sobre a vida, o amor, saneamento básico, ecologia, política, igualdade e fraternidade.
Pegue qualquer um desses termos e extrapole para sofisticadas palavras da linguagem adulta e então aplique em sua vida familiar, trabalho, governo ou mundo, e tudo continua firme e verdadeiro.
Pense como o mundo seria melhor se todos nós – o mundo inteiro - tomasse leite com bolachas às três da tarde, todas as tardes e depois deitássemos com nossos travesseirinhos no sofá da sala para uma soneca.
Ou então, se todos os governos tivessem como política básica sempre colocar as coisas de volta no lugar de onde foram tiradas e também sempre arrumar suas próprias bagunças.

E continua verdade, não importa a idade, quando sair para o mundo dê as mãos e fique junto.

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