sábado, 18 de junho de 2016

Antigamente: entre orelhões e smartphones

Dois homens conversam em um café no centro da cidade. O clima está frio e seco, mas o café está deliciosamente quente. Conversa vai, conversa vem, começa uma sessão de nostalgia que iria durar horas.
- Lembra-se dos orelhões? Antigamente bastava uma ficha telefônica e falávamos com quem quiséssemos.
- Sim, uma vez gastei uma dúzia de fichas DDD para falar com minha namorada que estava viajando.
- É, hoje em dia todo mundo tem seu próprio telefone celular. E pode ser encontrado a qualquer momento e em qualquer lugar.
- Essa talvez seja a parte ruim dos celulares. Não temos mais privacidade! Esteja onde estiver sempre vão te encontrar.
- A parte boa é que quando você não quer que te encontrem basta desligar o aparelho.
- Ah, mas aí bate uma preocupação, um medo de que algo grave aconteça e que ninguém vai conseguir te achar. Pesa a consciência.
- Verdade, estamos presos à tecnologia.
E a conversa sobre os celulares e a vida foi longe...
A tecnologia está aí para nos auxiliar, mas até que ponto as relações humanas têm mudado por causa dela?
Estar disponível 24h por dia no celular, Whatsapp, Facebook, Instagram, tem sido realmente valoroso para nós?
Vemos nos bares e lanchonetes mesas cheias de jovens, cada qual com seu smartphone. Ninguém conversa, ninguém ri junto. Vez ou outra um levanta a cabeça e diz: vou compartilhar com vocês essa piada, muito boa!! E fazem um monte de selfies com os amigos, todos sorrindo felizes. Mas não há mais troca, não há diálogo, não há riso solto, compartilhado de verdade, as relações estão cada dia mais superficiais. Conversamos mais com quem está “online” do que com nossos pais, nossos filhos, nossos colegas de escola ou de trabalho. Damos bom dia para o grupo do whatsapp, mas nem enxergamos o porteiro do prédio. Consolamos o amigo virtual, mas não temos tempo de ligar para o amigo real. As relações humanas têm mudado de lugar.
E estamos tão habituados a estar conectados dia e noite, que só o fato de pensar em ficar sem internet já nos causa angústia.
Precisamos aprender a “desplugar”. Deixar o celular no modo silencioso à noite, durante as refeições, ou durante um encontro com os amigos. Resgatar prazeres como a leitura... Quer coisa mais gostosa do que cheiro de livro novo sendo folheado pela primeira vez? Ler devagarinho, degustando cada palavra, deixando de lado o mundo inteiro para viver aquele momento mágico.
Deveriam criar regras de etiqueta para o uso dos celulares: se está conversando com alguém, tire os olhos do telefone e olhe para a pessoa. Se for jantar com os amigos, deixe o celular na bolsa (é até mais seguro!) e converse. Se estiver na igreja, teatro, cinema, palestra, escola ou qualquer lugar parecido, coloque o celular no modo silencioso, ou desligue mesmo. Seja educado e atencioso com as pessoas. Dê-lhes atenção. Aproveite os encontros com sua família e seus amigos para estar com eles de verdade, aproveitando cada segundo. Ouça histórias, conte piadas, ria junto.
A vida é tão curta...
Quais lembranças você quer carregar para toda a sua vida? As que estão no seu celular? Ou as que você viveu de verdade, intensamente?
Suas histórias são apenas as que aparecem na sua linha do tempo das redes sociais?
Pense... Repense...
Enquanto você está vendo nas redes o que os outros estão fazendo da vida, a sua própria vida está passando.

Levante seus olhos, tem um mundo inteiro esperando por você!

E para terminar, desejo a você, Drummond:

DESEJOS

Desejo a você...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho.
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Carlos Drummond de Andrade


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