Trabalhando com educação, não raro os pais nos procuram na escola para
entender porque a criança precisa escrever tanto, num mundo de computadores,
notebooks e smartphones. Para ajudar a compreender, trago uma matéria do jornal
El País, que explica com clareza o porquê da escrita manual, bem como os
benefícios que ela pode trazer para o desenvolvimento do cérebro das crianças.
Porque
é importante que as crianças escrevam a mão em um mundo de teclados
Tradução
livre da matéria do jornal El País de 6 de julho de 2016.
Experts acreditam que
escrever a mão pode ajudar as crianças a prestar atenção à linguagem escrita. Existe
uma tendência a subestimar a escrita manual como uma habilidade desnecessária,
apesar de os especialistas advertirem que aprender a escrever pode ser a chave
para, enfim, aprender a escrever.
Mas além da conexão
emocional que nós adultos possamos sentir com a maneira que aprendemos a escrever,
há um volume cada vez maior de estudos sobre o que um cérebro que está se desenvolvendo
normalmente aprende enquanto forma letras na página, tanto em letra de imprensa
como a cursiva. Em um artigo publicado este ano no Journal of Learning
Desabilities (Revista das dificuldades de aprendizagem), os investigadores
analisavam a maneira em que a linguagem oral e escrita se relacionam com a
atenção e com as denominadas aptidões da “função executiva” (como planejamento)
em alunos do 4º ano do Ensino fundamental e do 3º ano do Ensino Médio, com e
sem dificuldades de aprendizagem. Virginia Berninger, catedrática de Psicologia
Educativa da Universidade de Washington e autora principal do estudo, explica
que os resultados deste e de outros trabalhos indicam que “a escrita manual –
formar letras – faz com que a mente desenvolva e pode ajudar as crianças a
prestar atenção a linguagem escrita”.
No ano passado, um artigo de
Laura Dinehart, catedrática adjunta de Educação Infantil da Universidade
Internacional da Flórida, analisava várias associações possíveis entre a boa
caligrafia e os resultados acadêmicos: as crianças com boa letra conseguem
melhores notas porque os professores acham mais agradável ler seus trabalhos. As
crianças com dificuldade em escrever podem se concentrar mais em produzir as
letras, em detrimento do conteúdo.
Mas, na verdade, podemos
estimular o cérebro das crianças, ajudando-as a formar letras manuscritas?
Segundo Dinehart, numa população de crianças de baixa renda, as que possuíam
uma coordenação motora fina relacionada com a escrita antes dos 5 anos, mais
adiante obtinham melhores resultados na escola. A autora pedia mais
investigação sobre a escrita nos anos pré escolares e sobre as maneiras de
ajudar as crianças pequenas a desenvolver as capacidades que necessitam para “uma
tarefa complexa” que exige a coordenação de diferentes processos cognitivos,
motores e neuromusculares. “O mito de que a escrita manual não é mais que uma
aptidão motora é totalmente errôneo”, afirma Berninger. “Nela, utilizamos
partes motoras do nosso cérebro, e também planejamento e controle motor, mas há
uma região cerebral crucial em que coincidem a visão e a linguagem. É o giro
fusiforme (para saber mais, leia a matéria da Revista Psiquê
(http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/85/artigo279939-1.asp).
Nele, os estímulos visuais se convertem efetivamente em letras e palavras
escritas.
Letras
e Formas
A estudiosa assegura que é
preciso ver as letras com o “olho da mente” para traçá-las. As imagens
cerebrais mostram que a ativação desta região é diferente em crianças com
dificuldade para escrever a mão. Os scanners funcionais de cérebros de adultos
tem revelado uma rede cerebral característica que se ativa quando leem e que
inclue áreas relacionadas aos processos motores. Isso tem feito os cientistas
pensarem que o processo cognitivo da leitura pode estar conectado com o
processo motor de formação das letras.
Karin James, da Universidade
de Indiana, realizou scanners cerebrais de crianças que ainda não sabiam
escrever. “Seus cérebros não distinguem as letras, reagem da mesma forma a uma
letra ou a um triângulo”, observou. Uma vez que se ensinava as crianças a
escrever, os padrões de ativação cerebral em resposta às letras mostravam uma
atividade maior da rede da leitura, incluindo o giro fusiforme, junto com o
giro frontal inferior e as regiões parietais posteriores do cérebro, que os
adultos utilizam para processar a linguagem escrita, ainda que as crianças
ainda estivessem em um nível muito inicial como escritores.
Os especialistas em escrita
manual têm se esforçado para responder se a letra cursiva confere aptidões e
benefícios especiais além das vantagens que proporciona a letra de imprensa. Nas
crianças pequenas, com um desenvolvimento normal, teclar as letras não gera a
mesma ativação cerebral. “Claro que, à medida que crescemos, a maioria de nós
passa a escrever através dos teclados, ainda que, igual a muitos professores
universitários, eu mesmo já enfrentei o problema dos smartphones, mais por me
preocupar com a atenção dos alunos distraídos do que por fomentar a escrita
manual. Não obstante, segundo estudos sobre as anotações feitas em sala de
aula, parece que é menos provável que os estudantes universitários que escrevem
em um teclado se recordem dos conteúdos e saibam reproduzi-los, do que aqueles
que escrevem a mão” – afirma Dinehart.
Segundo Berninger, a
investigação indica que as crianças necessitam de uma formação introdutória em
letra de imprensa e depois sim aprenderem a escrever e treinar a letra cursiva,
seguindo para a aprendizagem da digitação posteriormente. É muito provável que
utilizar um teclado, e especialmente aprender as posições das letras sem olhar
as teclas, se beneficie das fibras que se intercomunicam no cérebro, já que, ao
contrário do que acontece na escrita manual, as crianças usam as duas mãos para
teclar. “O que defendemos é que se ensinem as crianças a serem escritoras
híbridas, primeiro aprendendo a escrever a mão, já que a escrita manual
facilita o reconhecimento das letras, e depois, nos últimos anos do Ensino
Fundamental, aprendendo a digitar”.
Como pediatra, creio que se
trata de outro caso em que deveríamos ter cuidado, de que a fascinação do mundo
digital não prive de experiências importantes que podem ter impactos reais nos
cérebros e rápido desenvolvimento das crianças. Dominar a escrita manual, ainda
que seja com letra ruim, é uma maneira de ter para si a linguagem escrita, em
sentido profundo.
“Em conjunto, minha
investigação se concentra em como o aprender e interagir com o mundo utilizando
nossas mãos tem efeitos realmente importantes para a nossa cognição”, conclui
James, “escrever a mão muda à função cerebral e pode mudar o desenvolvimento do
cérebro”.


Muito interessante!!! Como escrever a mão faz a diferença....
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