quarta-feira, 13 de julho de 2016

Porque ainda ensinamos as crianças a escrever letra cursiva?

Trabalhando com educação, não raro os pais nos procuram na escola para entender porque a criança precisa escrever tanto, num mundo de computadores, notebooks e smartphones. Para ajudar a compreender, trago uma matéria do jornal El País, que explica com clareza o porquê da escrita manual, bem como os benefícios que ela pode trazer para o desenvolvimento do cérebro das crianças.






Porque é importante que as crianças escrevam a mão em um mundo de teclados
Tradução livre da matéria do jornal El País de 6 de julho de 2016. 

Experts acreditam que escrever a mão pode ajudar as crianças a prestar atenção à linguagem escrita. Existe uma tendência a subestimar a escrita manual como uma habilidade desnecessária, apesar de os especialistas advertirem que aprender a escrever pode ser a chave para, enfim, aprender a escrever.
Mas além da conexão emocional que nós adultos possamos sentir com a maneira que aprendemos a escrever, há um volume cada vez maior de estudos sobre o que um cérebro que está se desenvolvendo normalmente aprende enquanto forma letras na página, tanto em letra de imprensa como a cursiva. Em um artigo publicado este ano no Journal of Learning Desabilities (Revista das dificuldades de aprendizagem), os investigadores analisavam a maneira em que a linguagem oral e escrita se relacionam com a atenção e com as denominadas aptidões da “função executiva” (como planejamento) em alunos do 4º ano do Ensino fundamental e do 3º ano do Ensino Médio, com e sem dificuldades de aprendizagem. Virginia Berninger, catedrática de Psicologia Educativa da Universidade de Washington e autora principal do estudo, explica que os resultados deste e de outros trabalhos indicam que “a escrita manual – formar letras – faz com que a mente desenvolva e pode ajudar as crianças a prestar atenção a linguagem escrita”.
No ano passado, um artigo de Laura Dinehart, catedrática adjunta de Educação Infantil da Universidade Internacional da Flórida, analisava várias associações possíveis entre a boa caligrafia e os resultados acadêmicos: as crianças com boa letra conseguem melhores notas porque os professores acham mais agradável ler seus trabalhos. As crianças com dificuldade em escrever podem se concentrar mais em produzir as letras, em detrimento do conteúdo.
Mas, na verdade, podemos estimular o cérebro das crianças, ajudando-as a formar letras manuscritas? Segundo Dinehart, numa população de crianças de baixa renda, as que possuíam uma coordenação motora fina relacionada com a escrita antes dos 5 anos, mais adiante obtinham melhores resultados na escola. A autora pedia mais investigação sobre a escrita nos anos pré escolares e sobre as maneiras de ajudar as crianças pequenas a desenvolver as capacidades que necessitam para “uma tarefa complexa” que exige a coordenação de diferentes processos cognitivos, motores e neuromusculares. “O mito de que a escrita manual não é mais que uma aptidão motora é totalmente errôneo”, afirma Berninger. “Nela, utilizamos partes motoras do nosso cérebro, e também planejamento e controle motor, mas há uma região cerebral crucial em que coincidem a visão e a linguagem. É o giro fusiforme (para saber mais, leia a matéria da Revista Psiquê (http://psiquecienciaevida.uol.com.br/ESPS/Edicoes/85/artigo279939-1.asp). Nele, os estímulos visuais se convertem efetivamente em letras e palavras escritas.

Letras e Formas

A estudiosa assegura que é preciso ver as letras com o “olho da mente” para traçá-las. As imagens cerebrais mostram que a ativação desta região é diferente em crianças com dificuldade para escrever a mão. Os scanners funcionais de cérebros de adultos tem revelado uma rede cerebral característica que se ativa quando leem e que inclue áreas relacionadas aos processos motores. Isso tem feito os cientistas pensarem que o processo cognitivo da leitura pode estar conectado com o processo motor de formação das letras.
Karin James, da Universidade de Indiana, realizou scanners cerebrais de crianças que ainda não sabiam escrever. “Seus cérebros não distinguem as letras, reagem da mesma forma a uma letra ou a um triângulo”, observou. Uma vez que se ensinava as crianças a escrever, os padrões de ativação cerebral em resposta às letras mostravam uma atividade maior da rede da leitura, incluindo o giro fusiforme, junto com o giro frontal inferior e as regiões parietais posteriores do cérebro, que os adultos utilizam para processar a linguagem escrita, ainda que as crianças ainda estivessem em um nível muito inicial como escritores.
Os especialistas em escrita manual têm se esforçado para responder se a letra cursiva confere aptidões e benefícios especiais além das vantagens que proporciona a letra de imprensa. Nas crianças pequenas, com um desenvolvimento normal, teclar as letras não gera a mesma ativação cerebral. “Claro que, à medida que crescemos, a maioria de nós passa a escrever através dos teclados, ainda que, igual a muitos professores universitários, eu mesmo já enfrentei o problema dos smartphones, mais por me preocupar com a atenção dos alunos distraídos do que por fomentar a escrita manual. Não obstante, segundo estudos sobre as anotações feitas em sala de aula, parece que é menos provável que os estudantes universitários que escrevem em um teclado se recordem dos conteúdos e saibam reproduzi-los, do que aqueles que escrevem a mão” – afirma Dinehart.
Segundo Berninger, a investigação indica que as crianças necessitam de uma formação introdutória em letra de imprensa e depois sim aprenderem a escrever e treinar a letra cursiva, seguindo para a aprendizagem da digitação posteriormente. É muito provável que utilizar um teclado, e especialmente aprender as posições das letras sem olhar as teclas, se beneficie das fibras que se intercomunicam no cérebro, já que, ao contrário do que acontece na escrita manual, as crianças usam as duas mãos para teclar. “O que defendemos é que se ensinem as crianças a serem escritoras híbridas, primeiro aprendendo a escrever a mão, já que a escrita manual facilita o reconhecimento das letras, e depois, nos últimos anos do Ensino Fundamental, aprendendo a digitar”.

Como pediatra, creio que se trata de outro caso em que deveríamos ter cuidado, de que a fascinação do mundo digital não prive de experiências importantes que podem ter impactos reais nos cérebros e rápido desenvolvimento das crianças. Dominar a escrita manual, ainda que seja com letra ruim, é uma maneira de ter para si a linguagem escrita, em sentido profundo.

“Em conjunto, minha investigação se concentra em como o aprender e interagir com o mundo utilizando nossas mãos tem efeitos realmente importantes para a nossa cognição”, conclui James, “escrever a mão muda à função cerebral e pode mudar o desenvolvimento do cérebro”.


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