segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Educação e o uso de medicamentos: até onde isso pode ser benéfico?


Recebi hoje a visita de uma profissional muito especial: a psicóloga Pollyanne Rosa. Ela me apresentou uma proposta de trabalho diferenciada dentro da psicanálise: o uso da contação de histórias – contalina - em lugar da prescrição indiscriminada da Ritalina. Conversamos sobre o assunto, e essa conversa me inspirou para o tema do post de hoje.
Trabalhando na educação, tenho visto cada dia mais, alunos que apresentam um comportamento agitado na escola, que resistem às regras e “não param quietos”, sendo encaminhados a pediatras e psiquiatras, e de lá acabam saindo com a prescrição de remédios controlados, geralmente a Ritalina. Não sou médica e nem quero aqui julgar o trabalho desses profissionais que, ao contrário, merecem todo o meu respeito. Até por que, eles também se baseiam em relatórios vindos da escola e relatos da família. Porém, me questiono se todas essas crianças sofrem mesmo com o TDHA (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) ou se apenas precisam de limites, de EDUCAÇÃO. Não estamos falando aqui da educação regular, formal, que é dada nas escolas. Trata-se da educação que a criança recebe desde que nasce, no âmbito familiar, e que escola nenhuma é capaz de transmitir.
Além disso, que tipo de aulas temos oferecido a essas crianças? Será que os professores se prepararam para receber essas crianças superestimuladas, que sabem usar os jogos dos smartphones dos pais com menos de 2 anos de idade, além de todos os demais estímulos que recebem diariamente desde que nascem? Ou estão praticando na sala de aula os velhos métodos aprendidos no passado?
O mau comportamento, o desinteresse e as dificuldades de aprendizagem estão sendo vistos como problemas orgânicos, esquecendo-se que o ser humano é um ser biopsicossocial (biológico, psicológico e social). Sinais como a agressividade e a desatenção nem sempre induzem a diagnósticos que necessitem de remédios. É preciso olhar o indivíduo, no caso a criança, de forma global, para então identificar o problema. Não é tratar a consequência e pronto – há que se identificar a causa. Problemas como o TDAH existem e não podem ser esquecidos, tampouco podemos deixar os medicamentos de lado. Se usados corretamente, eles são importantíssimos para o desenvolvimento da criança (e do adolescente ou adulto). Apenas não podemos transformar qualquer comportamento típico em diagnóstico fechado.
É preciso rever conceitos: nem toda criança agitada ou que não se concentra é hiperativa ou tem déficit de atenção. Alguns comportamentos como entusiasmo e a necessidade de chamar a atenção para si são típicos da infância, sendo que algumas crianças manifestam em maior grau, mas nem por isso é patológico. Há uma enorme diferença entre problemas de comportamento, que podem e devem ser tratados na escola, e transtornos de comportamento, que precisam de acompanhamento profissional e eventualmente demandam o uso de medicamentos.
Quando percebemos que, numa sala de aula, grande parte da turma esta desatenta e indisciplinada, é o momento de repensar a maneira como as aulas estão sendo dadas, como a rotina está sendo organizada, e propor a mudança por parte do professor, seja no tipo de atividades, seja na sua postura, para identificar se o problema é uma questão disciplinar ou pode ser algo que necessite do apoio de outros profissionais. Por exemplo, as crianças portadoras de TDHA não tem comportamento hiperativo apenas na escola, mas em todos os âmbitos dos quais faz parte, e inclusive durante o sono, já que o estímulo cerebral não cessa nunca, fazendo com que ela durma mal, caia da cama, ou tenha pesadelos. Se, contudo permanecer a desconfiança por parte do professor e da equipe pedagógica é hora de encaminhar os pais para buscar ajuda profissional.
Somente um médico é capaz de diagnosticar uma criança, após avalia-la e conversar com a família e os professores, cuidadosamente. Um profissional que lê um relatório vindo da escola e prescreve um medicamento controlado a uma criança, não tem credibilidade. É uma grande responsabilidade receitar um remédio que afeta física e mentalmente uma criança.
Não podemos esquecer, só para concluir, que a escola está lidando com seres humanos, independente de possuir laudos ou fazer uso de medicamentos. Toda criança tem o direito de aprender, e é obrigação dos professores se capacitarem para atender a todas as demandas trazidas pela diversidade de alunos que irão receber.



2 comentários:

  1. Primeiramente,querida Gisely, grata pelo elogio...todos somos especiais, não é?! Você também foi e é! Fiquei bem surpresa e feliz em ter te inspirado a falar um pouco sobre o que pensa e sente acerca desse assunto que é tão delicado.Creio que há muito a se refletir, se sensibilizar... E por que não a se conversar sobre isso? Que os tempos são outros não há dúvida, mas se é possível educar uma criança continuo com a interrrogação: Educa-se uma criança? Por que é uma boa pergunta! E como estou conhecendo e apreciando seu blog, pelo nome que deu a ele pondero que mudar a leitura desses sintomas e a forma de abordá-los poderão produzir singulares e salutares soluções para esse impasse. Para tanto, com o trabalho que faço em minha práxis, ciente que se faz indispensável subverter a referida lógica, chamando a atenção para o mal estar que é próprio ao ser humano, o meu desejo é que possamos dialogando, abordar e desenvolver um trabalho, iluminando pela arte literária o destino dessas crianças, oferecendo-lhes um caminho orientador fascinante, que multiplica as formas de conexão da fantasia à realidade articulando autorização e proibição, possibilitando-as contar e recontar, reinventando sua própria história. Ao abrir uma nova possibilidade que vai para além das avaliações, diagnósticos e suas consequentes etiquetas, promover encontrarem o seu lugar tanto no espaço familiar quanto no mundo, um lugar que confira sentido a sua identidade. Enfim, esses foram apenas alguns pensamentos que ressoaram em mim a partir do que expôs. Costumo brincar com as palavras que um passarinho verde me disse, numa visita, que talvez os cientistas estejam equivocados pois não somos feitos apenas de átomos e sim feitos de muitas histórias. Sim, é preciso rever conceitos!! E que tenhamos boas histórias pra contar ! Saudações. Pollyanne G. Freire Silva Rosa

    ResponderExcluir
  2. Pollyanne, tanto a sua visita quando o seu comentário enriqueceram muito este blog e também a mim mesma. É muito gratificante saber que existem mais pessoas que, como eu, acreditam na verdadeira educação, e que querem com sua práxis modificar o cotidiano de crianças e adolescentes que estão à mercê de laudos, diagnósticos e medicamentos. A literatura, o uso dos contos e da fantasia estão ao nosso alcance como instrumentos de valorização e mudança de atitudes. Reforço aqui, em público, o meu convite para que escreva sobre o projeto "Contalina" para o blog. Será um grande prazer divulgar e multiplicar sua experiência aqui. Abraço! Gisely

    ResponderExcluir