"Resta quanto tempo?
Não sei. O relógio da vida não tem ponteiros. Só se ouve o tique-taque... Só
posso dizer: 'Carpe diem' - colha o dia como um morango vermelho que cresce à
beira do abismo. É o que eu tento fazer". Rubem Alves
Se pararmos para pensar na
vida, acabamos chegando à conclusão de que pouco aproveitamos dela. Passamos os
dias cumprindo horários, correndo para atender a todos os compromissos, e
chegamos em casa exaustos, sem paciência para curtir tudo o que realmente
importa na vida: nossa família. Trabalhamos muito para dar conforto para os
nossos filhos, mas esquecemos de que eles precisam de muito mais do que isso.
Estamos perdendo a melhor fase deles, a infância, para garantir-lhes um futuro
melhor. E nesse futuro, eles não estarão mais conosco - estarão estudando,
trabalhando e saindo com os amigos, certos de que os pais sempre estarão lá
esperando por eles. Não serão mais possíveis os passeios de família, já que
cada um terá compromissos diferentes, férias que não se encaixam, e não cabe
mais todo mundo no carro, pois tem a namorada de um, o amigo do outro, e tudo vai
ficando mais difícil.
Ficamos esperando o feriado
prolongado, as férias, o final do ano para ficar mais com as crianças e enquanto
isso elas vão crescendo. Você pisca os olhos e lá estão elas, já adolescentes,
achando um tédio sair com os pais para almoçar. “Mas o que eu vou ficar fazendo
lá?”, “Não vai ter ninguém da minha idade?” “Eu não quero ir nessa festa chata!”
– são as frases que você mais vai escutar dos seus filhos nessa fase. E então,
você sentirá uma saudade imensa de quando eles eram pequeninos e te chamavam
para brincar, quando queriam andar de bicicleta na sexta-feira a tardinha,
depois que você chegava do trabalho sem nenhuma energia para nada. Quase poderá
ouvir aquela voz de criança pedindo: “Vamos dar uma voltinha?”, “Eu estava com
saudades!”. E vai doer na sua alma saber que essas coisas nunca mais vão
voltar.
Sabe quando você chega para
almoçar e as crianças vêm com mil novidades da escola e você diz: “Dá um tempo
meu bem, eu preciso descansar um pouco.” Isso também vai passar. Você chegará
em casa, vai perguntar como foi na escola, e com sorte ouvirá uma resposta
monossilábica: “Bem”. Algumas vezes verá sua menina chorando, e ela não contará
o porquê. Em outras, seu menino chegará irritado, e você jamais saberá o
motivo. Aquele ser que você gerou, amamentou e viu crescer, terá os seus
próprios segredos, seu mundo, e você não poderá mais entrar lá para cuidar
dele.
Diante de tudo isso,
aproveite! Esqueça o cansaço, o estresse, e brinque com seus filhos. Viva cada
segundo dessa infância tão pequena com toda a intensidade! Ouça as histórias
deles, conte muitas histórias, saiam para caminhar, andar de bicicleta, brinque
de “seu mestre mandou”, façam arte juntos, riam, se abracem, diga “eu te amo
muito” todos os dias, todas as horas, em qualquer momento. Trabalhe sim, porque
é bom para você e para as crianças também, pois crescerão sabendo o valor que
as coisas têm, da importância de se dedicar a uma causa, de ter seu próprio
dinheiro, sabendo que ele (o dinheiro) não cai do céu. Mas dedique-se aos seus
filhos todo o tempo que puder, não importa se é segunda-feira ou férias, que
cada dia seja único. “CARPE DIEM”
Para
fechar este post com chave de ouro, trago as sábias palavras de Affonso Romano:
Antes
que elas cresçam
Affonso Romano de Sant'Anna
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.
Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?
Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.
Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.
Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.
Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.
No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.



Excelente o documentário! Realmente precisamos rever o nosso tempo, as crianças precisam de nós e nós também precisamos delas, afinal ouvir o que eles tem a nos dizer e entrar nas brincadeiras de uma criança, é entrar em um mundo de coisas maravilhosas,sinceras, sem maldades.....
ResponderExcluirObrigada pelo carinho de sempre Dayana!!
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